Portugal vive hoje dois paradoxos quase incompreensíveis. O primeiro refere-se à constatação de que os trabalhadores portugueses dedicam 37,5 horas semanais ao trabalho, bem acima da média europeia de 36 horas semanais, de acordo com a Eurostat, sendo que 9,2% trabalham mais de 49 horas, contra 6,6% na UE.
Seria então de esperar que Portugal se encontrasse no topo dos rankings de produtividade. No entanto, de acordo com o Country Report Portugal 2024 da Eurostat, a produtividade do trabalho em Portugal continua cerca de 33% abaixo da média europeia, refletindo lacunas estruturais e desequilíbrios regionais. Isto significa que os portugueses trabalham mais, mas produzem menos.
O paradoxo é evidente: não é a quantidade de trabalho que está em falta, é a qualidade do mesmo, e isso tem muito a ver com a forma como as empresas estão a ser organizadas e geridas.
A geração mais qualificada de sempre, mas sem futuro em Portugal
Este não é um problema novo em Portugal. Desde os finais do século XX que a discussão sobre produtividade faz parte do discurso político e houve melhorias substanciais. Portugal identificou cedo a falta de recursos humanos qualificados como uma das causas do atraso estrutural do país, e apostou no ensino superior. O resultado foi uma transformação notável: em 2000, apenas um quarto dos jovens tinha formação superior; hoje, 47% dos portugueses entre os 25 e os 34 anos são licenciados ou mestres, um valor alinhado com a média da OCDE. Criou-se a denominada “geração mais qualificada de sempre” do país.
E aqui verifica-se o segundo paradoxo: a produtividade não aumentou como esperado. Umas das possíveis causas é a constatação de que muitos destes jovens qualificados têm vindo a emigrar para fora do país. Portugal deixou de ser um exportador de mão-de-obra não qualificada e passou a ser um país de exportação de mão-de-obra altamente qualificada. Como consequência, esta geração está a gerar valor nos países que agora estão à frente de Portugal nos rankings de produtividade e a tendência persiste.
De acordo com um estudo do JN na Universidade do Porto em 2025, estudantes universitários revelam que cerca de 73% ponderam emigrar após concluir o ensino superior, com 25% deles a terem já a decisão tomada. As razões para a fuga dos nossos cérebros são claras: salários baixos, baixos níveis de valorização profissional e dificuldades em encontrar emprego compatível com a sua qualificação.
Em suma, os empresários portugueses não reconhecem o valor destes jovens nem os contratam, provocando a fuga para países onde esse valor é reconhecido.
Chefias pouco preparadas, mas a evidência não engana
Vários estudos apontam que uma das principais razões é a baixa qualificação das chefias, que resulta em problemas graves de gestão, estratégia e visão empresarial. De acordo com dados do INE, em 2024, 42% dos empregadores tinham apenas o básico e só 28% tinham ensino superior (vs 35% dos trabalhadores), o que ajuda a explicar a prevalência da gestão de curto prazo e da contenção de custos em detrimento da inovação. Ao mesmo tempo, há empresas inovadoras em Portugal que provam que existe um caminho diferente.
Um estudo recente da Universidade do Minho em colaboração com o Banco de Portugal e o Country Report Portugal 2024, do ministério das finanças, reportam evidências inequívocas de que quanto maior a qualificação dos trabalhadores, maior a produtividade das empresas, havendo vários casos de sucesso em Portugal. Mas este continua a ser o retrato de uma minoria. A maioria das empresas portuguesas, em particular as PME, que constituem a espinha dorsal da economia nacional, resiste a esta mudança. Muitas PME mantêm modelos assentes em baixos salários e processos ineficientes, perdendo competitividade mesmo em setores em crescimento. O problema não é a falta de mercado, mas sim a falta de visão.
Portugal 2030: uma oportunidade a não perder
Outro dos entraves é a perceção de que o retorno do investimento em qualificação e inovação nem sempre é imediato, o que exige paciência, visão de médio e longo prazo, algo que nem todas as PME conseguem lidar. Perante este cenário, o Estado tem procurado criar instrumentos para apoiar a mudança. Um dos mais relevantes é o programa Portugal 2030, que prevê apoios específicos para a contratação de recursos humanos altamente qualificados (RHAQ). Trata-se de um incentivo que cobre 50% dos custos salariais durante os primeiros três anos de contrato. E há muitos outros tipos de apoios que ajudam a cofinanciar o investimento em projetos inovadores e na participação de recursos humanos qualificados nestes projetos. Fale com a Progest para saber mais!
É uma oportunidade rara para as PME portuguesas, tradicionalmente mais fragilizadas financeiramente, contratarem licenciados, mestres e doutorados capazes de impulsionar inovação, digitalização e internacionalização. Com este apoio, o risco financeiro da contratação reduz-se de forma significativa, permitindo que mesmo empresas de menor dimensão possam integrar pessoal com competências de elevado valor. É, por isso, um instrumento que não só deve ser aproveitado, como pode marcar a diferença no sucesso de uma empresa.
A mudança que falta depende dos empresários
As empresas portuguesas têm hoje uma janela de oportunidade que não pode desperdiçar. O Estado criou incentivos, as universidades formaram uma geração altamente qualificada e os exemplos de empresas inovadoras mostram que a aposta compensa. O que falta agora é uma mudança de mentalidades. Cabe sobretudo aos empresários portugueses abandonar a lógica da sobrevivência imediata e apostar na estratégia, na inovação e nos recursos humanos qualificados.
As empresas que fizerem esta escolha não estarão apenas a melhorar os seus resultados: estarão a contribuir para um país mais resiliente, próspero e capaz de reter o talento que forma.
José Barbosa
Consultor de Incentivos, Inovação e Investimento