Quando surge uma oportunidade de apoio, a questão que muitas empresas colocam é imediata: vale a pena avançar com a candidatura?
Mas, antes disso, há uma pergunta mais importante e, em muitos casos, reveladora: este investimento continua a fazer sentido mesmo sem incentivo?
Pode parecer uma provocação, mas é precisamente aqui que se separa um projeto de investimento sólido de uma candidatura construída apenas em função de uma oportunidade de financiamento.
Um incentivo pode acelerar decisões, melhorar a viabilidade financeira do projeto e reduzir o esforço de execução, mas não deve ser o elemento que cria artificialmente o investimento.
Na prática, é relativamente frequente que as empresas comecem por procurar um apoio disponível e apenas depois tentem desenhar um projeto que se ajuste aos seus critérios.
O problema desta abordagem é simples, a candidatura pode até cumprir requisitos formais, mas tende a revelar fragilidades estruturais, como:
- Pouca coerência estratégica
- Fundamentação insuficiente e genérica
- Indicadores desproporcionais
- Metas pouco sustentadas
- Dificuldade em demonstrar o valor acrescentado do projeto
Uma candidatura consistente não começa no formulário. Começa numa necessidade real de investimento.
A primeira questão é, por isso, estratégica: o projeto responde a uma necessidade concreta? Resolve um constrangimento relevante? Contribui para ganhos de eficiência, diferenciação, capacidade, sustentabilidade ou competitividade? Quando a resposta a estas questões é vaga ou demasiado dependente da existência de apoio, isso revela fragilidade na própria base do investimento.
Tão importante quanto a dimensão estratégica é a racionalidade económica do investimento. Nem todos os investimentos têm de gerar retorno imediato, mas todos devem assentar numa estratégia clara e em critérios económicos demonstráveis.
Reduz custos? Melhora a produtividade? Diminui consumos? Reforça a capacidade produtiva? Melhora o posicionamento da empresa? Cria valor mensurável?
Sem esta base, a candidatura arrisca ficar centrada na elegibilidade da despesa, em vez de demonstrar a qualidade do investimento.
Por fim, importa considerar um terceiro teste: a maturidade técnica e a capacidade de execução. Um projeto pode parecer acertado no plano concetual e, ainda assim, não estar suficientemente maduro para avançar. A falta de preparação técnica, a insuficiência documental, a indefinição financeira ou a ausência de condições operacionais podem fragilizar a candidatura logo à partida.
É por isso que os incentivos devem ser lidos pelo que realmente são: uma alavanca para acelerar e reforçar o investimento, não um substituto da decisão empresarial.
As candidaturas mais consistentes são aquelas em que o apoio surge como reforço de uma decisão já estruturada, e não como o ponto de partida do investimento. Quando a decisão de investir assenta apenas na existência de apoio, fica por fazer a análise essencial, porque o incentivo melhora o projeto, não o cria.
No fim, o verdadeiro teste de uma candidatura talvez esteja menos na aprovação e mais na qualidade do investimento que lhe dá origem. E essa é, muitas vezes, a pergunta mais útil de todas: se não existisse incentivo, este continuaria a ser um bom projeto para a empresa?
Patrícia Araújo
Consultora Sénior de Incentivos, Inovação e Investimento